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Diário Medicina Preventiva

Uma intensa viagem pelo dia-a-dia de uma estudante de Medicina e, além disso, algumas indicações sobre a importância da prevenção para preservarmos a nossa saúde.

Diário Medicina Preventiva

Uma intensa viagem pelo dia-a-dia de uma estudante de Medicina e, além disso, algumas indicações sobre a importância da prevenção para preservarmos a nossa saúde.

27.Fev.07

A ÚLTIMA DANÇA

Como futura médica, retirei implicações das vivências que tive oportunidade de realizar nas 2 visitas com o meu grupo, no âmbito da disciplina de Introdução à Medicina que foram enriquecedoras no sentido de melhor compreender a importância da harmonia entre a formação/competência e a humanidade, atenção e empatia na carreira médica.

Visitei o Centro Polivalente de S. Cristóvão e S. Lourenço e a Associação Acreditar. Apesar dos contornos bastante diferentes das 2 visitas, elas despertaram-me o espírito para dois temas principais: o magnifico trabalho de solidariedade e as pessoas carenciadas contempladas pelo mesmo.

No C.P.S.C.S.L. fui surpreendida quando soube que não ia passar o dia no centro de dia (que alberga idosos a tempo permanente), mas que, em vez disso, visitaria as pessoas nas suas próprias casas, acompanhando as responsáveis pelo apoio domiciliário.

Inicialmente desconfortável com o sentimento de invasão à intimidade daquelas senhoras, deixei-me fascinar pelo excelente trabalho desenvolvido pelas auxiliares: Lúcia e Rosário. E senti que, para aquelas senhoras idosas, elas faziam parte da família, e estavam mais presentes do que os familiares, que as esqueceram… e que elas tornam presentes nas suas recordações. Mas se me comoveu a atenção, disponibilidade, simpatia, carinho e felicidade que aquelas mulheres levam todos os dias a casa daquelas idosas, mais me comoveu o traço que encontrei em comum nas duas senhoras que visitei:

A Dona Olga era a mais extrovertida, ainda guardava um olhar maroto quando dizia que o seu vizinho policia era muito jeitoso.

A Dona Amélia era mais reservada, tinha muitas dores devido às artroses.

Mas em comum, nas simpáticas senhoras, existia aquilo que mais as magoa, a diferença entre o que foram e o que são, as penosas recordações de um tempo (em que foram felizes) e que não volta mais, a consciência da sua própria situação e o sentimento de inutilidade e abandono.

É com o olhar brilhante e preso no passado que a Dona Olga recorda como era bonita, afirmando que sempre “fora vaidosa, não peneirenta”. Lembra-se que todos lhe gabavam as bonitas pernas, “e olhem agora, tanta inveja tiveram, que agora estão assim”, diz apontando para a operação e a prótese que lhe puseram na perna, e diz que não se importa de morrer.

Da Dona Amélia, conta a Lúcia, que ela chegou a trabalhar num famosíssimo salão de beleza, pelo que conviveu com pessoas como a pintora Paula Rêgo ou Marcelo Rebelo de Sousa. Hoje está ali, só e com uma tristeza profunda. É para mim doloroso lembrar-me do que a senhora repetia constantemente, “Desculpem, eu estar assim, sem interesse para vocês. Um farrapo de gente, nada mais.”. A Dona Amélia entregava-se, desistia claramente de viver, não suportava esse contraste doloroso entre o que é e o que fora.

Como futura médica, esta experiência fez-me compreender que estes idosos têm necessidades especiais e têm de ser tratados pelos médicos não com desprezo ou indiferença mas com todo o respeito, atenção e dignidade que merecem. Além de tratar devidamente os problemas físicos, o médico tem de ter atenção às carências afectivas. Uma simples palavra de carinho, um gesto de compreensão, um olhar de apoio… Um sinal que lhes mostre que alguém se preocupa com eles, que lhes transmita confiança.

A esperança que a “D. Olga” precisa, a esperança que ela perdeu, “Será que alguma vez eu voltarei a dançar? Eu gostava tanto. Mas sei que não, nunca voltarei a dançar.”...

“Se vale a pena viver a vida esplêndida - esta fantasmagoria de cores, de grotesco, esta mescla de estrelas e de sonho? ... Só a luz! Só a luz vale a vida! A luz interior ou a luz exterior. Doente ou com saúde, triste ou alegre, procuro a luz com avidez. A luz é para mim a felicidade. Vivo de luz. Impregno-me, olho-a com êxtase. Valho o que ela vale. Sinto-me caído quando o dia amanhece baço e turvo. Sonho com ela e de manhã é a luz o meu primeiro pensamento. Qualquer fio me prende, qualquer reflexo me encanta. E agora mais doente, mais perto do túmulo,

busco-a com ânsia.”

Raul Brandão